A alta do paciente cantor

Nascido com fissura labiopalatina, Alex Augusto Lourenço integra dupla sertaneja e faz shows em todo o Estado do Paraná; jovem de 29 anos teve alta do HRAC-USP neste mês

Era uma quinta-feira. “Pois quem ama / Tudo pode vencer”, dizia trecho da canção do Roupa Nova interpretada pelo jovem Alex Augusto Lourenço, 29, em uma das recepções de usuários do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP em Bauru.

Mas não era uma quinta-feira qualquer. Com seu vozeirão de arrepiar e violão, Alex emocionava e inspirava pacientes, familiares, profissionais e estudantes do HRAC-USP por onde passava. Era um dia especial, de celebração e alegria. O jovem paranaense retornava ao Hospital no dia 09/12/2021 para consulta na área de Cirurgia Plástica e para um momento muito esperado pelos pacientes com fissura labiopalatina: a alta do tratamento.

“Não foi fácil. Já sofri muito bullying, na escola principalmente. Tinha a voz fanhosa e muita vergonha de falar. Alguns riam de mim. Já chorei bastante, já teve momento de só querer ficar trancado dentro do quarto. Mas, graças aos meus pais, que sempre me apoiaram e orientaram, fui aprendendo a lidar. Meu pai sempre dizia: ‘Tudo o que você ouvir de ruim deixe entrar por um ouvido e sair pelo outro. Ninguém é melhor do que ninguém e ninguém é perfeito. Todos têm defeitos’”, relata Alex.

Do primeiro atendimento no HRAC-USP – aos quatro meses de vida – até a alta, aos 29 anos, o jovem e sua família viveram uma longa e árdua jornada, em um processo de reabilitação que envolveu diversas cirurgias, retornos e acompanhamento médico, odontológico, fonoaudiológico e com outras especialidades, com inúmeras idas e vindas percorrendo os 460 quilômetros que separam Bauru da pequena Peabiru, no Paraná, cidade onde Alex reside.

Mesmo com todas as implicações estéticas, funcionais e psicossociais que a fissura labiopalatina pode trazer – especialmente alterações no desenvolvimento da fala –, Alex superou barreiras e tornou-se músico e cantor. É integrante da dupla sertaneja Diego & Alex, sendo segunda voz e violão, e faz shows em todo o Estado do Paraná (para saber mais sobre o trabalho da dupla, acesse o perfil no Instagram @diegoealex).

“Aprendi a tocar violão com 14 anos, sozinho, na calçada de casa. Agradeço ao dom de Deus. A partir daí fui perdendo a vergonha e já passei a tocar e a cantar em churrascos. Tempos depois toquei guitarra durante dois anos em uma banda gaúcha, até encontrar um amigo meu em um bar, o Diego. E a gente se conectou, uma voz completa a outra. Começamos a nos apresentar, as pessoas gostaram e passaram a nos convidar. Somos bem conhecidos no Paraná”, conta Alex.

A dupla faz cover e tem uma música de trabalho própria. Além da dupla, o jovem também trabalha em uma fábrica de resistências elétricas. Casado, planeja projetos para ampliar a divulgação do trabalho da dupla – como lançamento de DVD e de outras músicas próprias – e pretende ter filho futuramente.

“Não acreditava que ia chegar até aqui. Nunca imaginei que iria ficar com a fisionomia que estou. Olho para o espelho e sorrio. Estou muito feliz. Agradeço a Deus em primeiro lugar. Ao Centrinho, que trata todo mundo com amor. Ao meu pai [falecido há cinco anos] e à minha mãe, por toda a dedicação e apoio deles”, comemora Alex.

“Para quem talvez não acredita, ou está com medo se o resultado do tratamento vai ficar bom, meu recado é: confie! Vá em frente! Eu cheguei até o final, você pode chegar também. Tudo vai dar certo!”, finaliza.

E como diz sabiamente a canção: “Pois quem ama / Tudo pode vencer”.

Veja vídeos de Alex cantando em recepção do HRAC-USP:

Vídeo 1

 

Vídeo 2

 

Fissura labiopalatina
Condição congênita em que há comprometimento da fusão dos processos faciais durante a gestação, a fissura labiopalatina está relacionada a fatores genéticos e ambientais. Apresenta grande variabilidade clínica, podendo envolver desde uma pequena cicatriz labial até fissuras completas e bilaterais, que atingem o palato e são mais complexas. Pode ocorrer de forma isolada, estar associada a outras malformações ou ainda fazer parte de um quadro sindrômico. A prevalência no Brasil é de uma a cada 650 crianças nascidas.

As principais implicações que as fissuras podem trazer ao indivíduo são dificuldade na alimentação, alterações maxilares e da dentição, comprometimento do crescimento e estética facial e distúrbios relacionados ao desenvolvimento da fala e audição. Ao longo dos anos, essa condição pode inclusive trazer impactos psicossociais (como o bullying e a dificuldade de acesso ao mercado de trabalho).

O tratamento é um processo que dura em média 20 anos (até o término do crescimento). Envolve a atuação de equipe interdisciplinar, das áreas de cirurgia plástica, odontologia, fonoaudiologia, entre outras especialidades, todas indispensáveis à reabilitação, e engloba aspectos funcionais, estéticos e psicossociais.

Fachada do HRAC-USP. Foto: Klaus Aires

HRAC-USP: centro de liderança e excelência
Instituição pública mantida com recursos da USP, do Sistema Único de Saúde (SUS) e de convênios institucionais, o HRAC-USP foi fundado em 24/06/1967, por professores da FOB-USP. Pioneiro no país em suas áreas de atuação, é referência mundial no tratamento e pesquisa das anomalias craniofaciais, síndromes associadas e deficiência auditiva. Nesses 54 anos de atividades, registra mais de 122.000 pacientes já atendidos (sendo 52.000 ativos) de todo o Brasil, e já formou cerca de 1.700 mestres, doutores, especialistas e outros profissionais em cursos de extensão universitária.

Em 13/07/2021, o HRAC-USP foi estabelecido como o primeiro Centro de Liderança em Fissuras Labiopalatinas no Brasil pela Smile Train – maior organização do mundo dedicada à causa da fissura labiopalatina –, com a qual o Hospital iniciou parceria em 2017. Os Centros de Liderança servem como núcleos regionais para o tratamento e treinamento profissional em fissuras, fornecendo um modelo de reabilitação integral e centrado na equipe interdisciplinar, sendo referência para outros centros e garantindo que o mais alto padrão de tratamento de fissuras esteja disponível para todos.

 

(Imagem de capa: Alex Lourenço cantou e emocionou pacientes, familiares e equipe do HRAC. Foto: Tiago Rodella/HRAC-USP)

Assessoria de Imprensa HRAC-USP

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