Plano de assistência ao idoso com deficiência auditiva no HRAC-USP é premiado

Equipe conquistou 2º lugar da campanha de envelhecimento saudável da SBFa; estratégias visam minimização dos impactos da pandemia e continuidade da assistência

A equipe da Divisão de Saúde Auditiva do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho-USP) acaba de conquistar o segundo lugar no Prêmio de Melhor Campanha do Envelhecimento Saudável, concedido pelo Departamento de Audição e Equilíbrio da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa). O resultado foi comunicado no último dia 27 de janeiro.

Intitulada “Plano de gestão em saúde auditiva no idoso para o enfrentamento de Covid-19”, a campanha visou “o planejamento das ações imediatas, de médio e longo prazo, bem como das estratégias adotadas com vistas à minimização dos impactos da pandemia para a continuidade da assistência à pessoa idosa usuária de dispositivos eletrônicos”, explica a fonoaudióloga Tyuana Sandim da Silveira Sassi, chefe técnica da Divisão de Saúde Auditiva do HRAC-USP.

Segundo o médico otorrinolaringologista Luiz Fernando Manzoni Lourençone, diretor clínico, chefe técnico da Seção de Implante Coclear do HRAC-USP e docente do Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), “em tempos atuais da pandemia de Covid-19, foi necessário o ajuste da organização do serviço por meio de novos e rígidos protocolos de atendimento visando a continuidade do processo de reabilitação auditiva – que envolve desde a adaptação do aparelho de amplificação sonora individual (AASI), o monitoramento da audição e o acompanhamento do uso do dispositivo, bem como o envolvimento de seus familiares no processo para melhor qualidade de vida da pessoa idosa –, evitando, assim, o abandono do tratamento”.

A campanha premiada tem como autores as fonoaudiólogas Valdéia Vieira de Oliveira, Tyuana Sandim da Silveira Sassi, Juliana Nogueira Chaves, Jerusa Roberta Massola Oliveira, Érika Cristina Bucuvic, Eliane Aparecida Techi Castiquini, Ticiana Cristina Freitas Zambonato, Elaine Cristina Moreto Paccola e Cláudia Danielle Pelanda Zampronio, além do médico Luiz Fernando Manzoni Lourençone, e contou com todo o apoio do superintendente Carlos Ferreira dos Santos.

Saúde auditiva na pandemia
A deficiência auditiva é uma condição incapacitante que determina limitações ao indivíduo, afetando aspectos biopsicossociais e constituindo problema de saúde pública pelos prejuízos e incidência.

Estudo do Instituto Locomotiva de Pesquisa apresentado na Semana da Acessibilidade Surda de 2019 –  e divulgado pela Agência Brasil – revela a existência, no país, de 10,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva, sendo que a predominância (57%) é na faixa etária de 60 anos ou mais.

Lourençone aponta que a deficiência auditiva é bastante comum e pode ocorrer por diversos fatores, como excesso de ruídos, malformações, infecções, traumas, inflamações, doenças neurológicas, câncer e até mesmo doenças prevalentes do cotidiano, como diabetes e hipertensão.

“A deficiência auditiva tem impacto muito significativo na vida das pessoas, prejudicando sua comunicação e as atividades cotidianas. Sem o tratamento auditivo adequado, os idosos tendem a se isolar e evitar o convívio social, mesmo com os familiares mais próximos que residem com eles. Essa privação também dificulta o acesso à informação por meio de recursos e tecnologias que dependem da audição e pode, até mesmo, trazer implicações para a memória ou déficit cognitivo”, destaca o médico.

Os idosos também estão entre os grupos de risco para a Covid-19, e tiveram sua mobilidade reduzida por conta dos cuidados necessários. Além disso, atendimentos considerados eletivos – como é o caso dos procedimentos que envolvem o tratamento da deficiência auditiva –, em diversos serviços de saúde, foram impactados, especialmente no período inicial da pandemia.

Para superar esses desafios e manter a assistência à saúde auditiva do idoso, no período de março a setembro de 2020, a Divisão de Saúde Auditiva do HRAC-USP atendeu, presencialmente, os familiares dos usuários idosos para verificação de possíveis problemas no funcionamento dos AASI, regulagem após retorno da assistência técnica, substituição de tubo dos moldes auriculares e filtros dos aparelhos, assim como os casos de urgência com necessidade de ajustes e moldagem do molde auricular, queixas otorrinolaringológicas e renovação de benefícios sociais assegurados por lei.

“Para isso, foi elaborado um novo protocolo de biossegurança, que incluiu o uso de equipamentos de proteção individual como máscaras e luvas, e a reformulação da agenda dos profissionais (com um tempo maior de atendimento, permitindo a limpeza das salas, cabinas e equipamentos)”, conta a fonoaudióloga Tyuana Sassi.

“Nesse mesmo período, também foi estruturado um protocolo de teleconsulta em fonoaudiologia para atendimento dos usuários de dispositivos eletrônicos do nosso serviço, baseado em boas práticas clínicas com respaldo e permissão de sociedades científicas, como o Conselho Federal de Fonoaudiologia (Resolução CFFa nº 580, de 20 de agosto de 2020), de forma que essas atividades fossem realizadas com qualidade, respeito à privacidade e segurança do idoso. O protocolo compreende a teleconsulta na modalidade síncrona com a realização de videoconferência via Google Meet, no qual é realizada sessão de orientação e aconselhamento informativo após a adaptação ou reposição do AASI no atendimento presencial. De acordo com a queixa e necessidade do paciente, são realizadas: orientações e treinamentos quanto aos benefícios e limitações do AASI, cuidados e uso do AASI, molde auricular e estratégias de comunicação; ajuste ou substituição dos tubos dos moldes auriculares quando necessário; prognóstico e papel do paciente no processo de reabilitação auditiva”, explana.

“Na modalidade assíncrona, são disponibilizados vídeos informativos sobre: cuidado, uso e manuseio dos diferentes tipos de dispositivos eletrônicos; limpeza dos moldes auriculares; substituição do tubo do molde do AASI retroauricular; inserção do molde no AASI e na orelha; substituição das olivas e limpeza do tubo fino ou receptor no canal; limpeza e troca do protetor de cera do AASI intra-aural e receptor no canal; inserção do intra-aural na orelha e substituição da bateria em diferentes dispositivos eletrônicos”.

Ainda de acordo com Tyuana Sassi, ao todo, no período de março a setembro de 2020, foram realizados 571 atendimentos presenciais, incluindo a adaptação e reposição de aparelhos auditivos de amplificação sonora e acompanhamento dos dispositivos eletrônicos adaptados. Esse total inclui familiares de usuários acima de 60 anos e pacientes até 60 anos.

A dona de casa Helena Oehler utilizando aparelho auditivo. Foto: Sandra Oehler

A dona de casa Helena Manrique Oehler, 82 anos, de Chavantes (SP), foi uma das pacientes beneficiadas. Segundo a filha Sandra Regina Oehler, o aparelho auditivo de Dona Helena sofreu dano e foi enviado à assistência técnica da empresa.

“Minha mãe ficou cerca de 20 dias sem o aparelho. Nesse período, ela teve muita dificuldade para nos ouvir e conversar. Sem o aparelho, ela praticamente não escutava nada. Precisávamos falar muito alto. Ela assistia TV em pé e bem perto da televisão. Foi uma limitação a mais nessa situação toda de pandemia”, relata.

Após o conserto, Sandra levou o AASI da mãe à Divisão de Saúde Auditiva do HRAC-USP juntamente com a pré-moldagem anterior e, assim, foi possível a confecção de novos moldes mesmo sem a paciente estar presente, além da regulagem do aparelho. “Depois do conserto, foi tudo muito rápido. Minha mãe já se adaptou novamente e está escutando normalmente com o aparelho. Esse atendimento durante a pandemia foi muito importante para nós”, pontua Sandra.

Quanto ao protocolo de teleconsulta, Tyuana Sassi informa que o mesmo está sendo implantado de maneira gradual na rotina ambulatorial dos usuários de dispositivos eletrônicos na Divisão de Saúde Auditiva. “Devido à dificuldade de muitos idosos com a tecnologia, estamos ainda no princípio da implantação da teleconsulta, mas pretendemos abranger, até dezembro de 2021, 255 idosos adaptados com AASI pela primeira vez e 184 que receberam a reposição do dispositivo eletrônico”.

“A partir de setembro de 2020, foram retomados gradualmente os atendimentos eletivos presenciais no Hospital. Mas a campanha demonstrou, portanto, que as ações do planejamento de gestão frente à pandemia de Covid-19 implementadas na Divisão de Saúde Auditiva do HRAC-USP têm possibilitado aos idosos a continuidade do processo de reabilitação auditiva, com a possibilidade de manutenção das consultas periódicas por meio da teleconsulta”, finaliza a fonoaudióloga.

 

(Imagem de capa: Fonoaudióloga Raquel Pinheiro da Silva (residente do HRAC-USP) e o paciente Djalma C. Ferro durante teste para verificação de amplificação de aparelho auditivo. Foto: Tiago Rodella, HRAC-USP)