HRAC/Centrinho-USP completa 52 anos ampliando contribuição com a assistência e o ensino

Solenidade no dia 24 de junho marcou o aniversário da instituição, com hasteamento de bandeiras e mensagem dos dirigentes            

Hasteamento das bandeiras: cirurgiã-dentista Renata Pernambuco, aluna de especialização Gabriela Mendonça Rando e paciente Lucas Queiroz representaram, respectivamente, os servidores, alunos e usuários do HRAC. Foto: Tiago Rodella, HRAC-USP

O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP completou 52 anos de atuação no último dia 24 de junho. A data foi celebrada em solenidade no jardim interno do Hospital, com hasteamento de bandeiras e pronunciamento dos dirigentes. O evento reuniu pacientes e familiares, servidores, docentes e alunos do campus USP-Bauru.

O professor Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do HRAC-USP e diretor da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), iniciou seu discurso ressaltando que 52 anos é um marco muito importante e que é preciso comemorar e celebrar. “É também um momento para agradecermos. Inicialmente, agradecemos àqueles docentes visionários da FOB, que há 52 anos iniciaram as atividades do HRAC e que por tanto tempo serviram ao HRAC, como o Prof. Gastão [José Alberto de Souza Freitas, que se aposentou em 2012]. Agradecemos ainda a todos os que ocuparam a Superintendência antes de nós: Prof. Gastão, Dr. João Henrique Nogueira Pinto, Dra. Regina Amantini, Profa. Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado e Prof. José Sebastião dos Santos. Cada um deles, à sua maneira, trabalhou arduamente para que o HRAC mantivesse a sua excelência e aumentasse o seu nível”, afirmou.

“Também precisamos agradecer aos servidores, desde o nível básico, passando pelo nível técnico, até os profissionais de nível superior. Do funcionário que preenche ficha até o médico que anestesia, que opera, que examina, todos são importantes e ajudaram a construção dessa excelência ao longo de 52 anos. E esses profissionais foram ajudados por estudantes e pesquisadores que passaram por aqui, uma equipe enorme que conseguiu resultados tão importantes”, acrescentou.

“E, o mais importante, agradecemos aos pacientes e às famílias, que entregam as suas vidas a nós, com a expectativa de que o HRAC melhore a sua qualidade de vida. Estamos aqui para honrar a confiança desses pacientes, que recebem um tratamento como em poucas partes do mundo”.

Foto: Tiago Rodella, HRAC-USP

O professor Carlos Ferreira dos Santos também mencionou em seu discurso o momento atual de transição. “Temos que ser bastante otimistas para organizarmos o nosso Hospital das Clínicas, que já foi instituído por decreto do Governo do Estado. E temos uma grande missão de montarmos o processo de abertura da Faculdade de Medicina de Bauru da USP. Em ambos os processos, o HRAC será protagonista. Precisamos da ajuda de todos para que esses planos se concretizem”, enfatizou.

Segundo o superintendente, “a Secretaria de Estado da Saúde começa, ainda este ano, a fazer investimentos para que a Unidade 2 seja adequada em termos do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária, e para que possamos fazer uma ocupação do prédio de forma organizada, em consonância com as necessidades de Bauru e dos outros 67 municípios que compõem o Departamento Regional de Saúde (DRS-6), e em conjunto com os demais hospitais da cidade”.

“O que vislumbramos é a formação de um complexo hospitalar, para que sejam otimizadas as equipes e insumos. Portanto, vamos ter muito trabalho pela frente, e precisamos desse time, dessa equipe que mostrou a sua excelência para o mundo ao longo desses 52 anos”, finalizou o professor Carlos.

Foto: Tiago Rodella, HRAC-USP

Já o professor Guilherme Janson, superintendente substituto do HRAC-USP e vice-diretor da FOB-USP, relatou que, como filho de professor do campus, acompanhou toda a trajetória de fundação do Hospital e o esforço dos fundadores para a sua concretização. Citou também o prestígio internacional do HRAC.

“Todo esse esforço foi capitaneado pelo Dr. José Alberto de Souza Freitas, que, com muito carinho e amor, sempre se dedicou à tarefa de cuidar do Hospital. E devido à dedicação de todos que aqui trabalham, o HRAC tornou-se referencia mundial, tendo recebido diversos prêmios. Sou testemunha desse reconhecimento em várias ocasiões. Mas saliento especialmente uma delas, em que estava na Angle Society of Orthodontists. Quando mencionei que era de Bauru, imediatamente perguntaram sobre o HRAC e fizeram diversos elogios”, relembrou.

Em sua fala, o professor Guilherme Janson agradeceu ainda a todas as oportunidades proporcionadas pelo HRAC em sua vida profissional, na graduação, na pós-graduação e na docência. “Agora, junto com o Prof. Carlos Ferreira dos Santos, pretendo continuar o excelente trabalho desenvolvido por nossos antecessores. Assim, parabenizo a todos que sempre trabalharam com amor e carinho pelo nosso HRAC, o Centrinho”, encerrou.

Foto: Tiago Rodella, HRAC-USP

Superação
Convidado para representar os usuários do HRAC no hasteamento das bandeiras, o paciente Lucas Santos Queiroz, 26 anos, de Uberlândia (MG), concedeu entrevista após a solenidade e contou um pouco de sua trajetória e superação.

“Aqui nasceu minha autoestima. Aqui melhorei a minha fala, o meu visual, e hoje sou muito feliz, venci obstáculos. Aos 18 anos, ingressei nas Forças Armadas. Disseram que eu nem poderia entrar. No Exército, entrei como soldado, tive a oportunidade de fazer um curso de formação de cabo. Depois fiz o curso de formação de sargento e pude crescer profissionalmente. Agora, passei em concurso da Polícia Militar. E tudo começou aqui. Todo o tratamento e a reabilitação abriram muitas portas”, comemorou o paciente.

Lucas nasceu com fissura labiopalatina e realiza tratamento no HRAC-USP desde os três meses. Casado, Lucas também disse estar feliz da vida porque acaba de ser pai novamente. Já era pai de uma menina de dois anos e, há um mês, nasceu seu menino.

A comemoração dos 52 anos do HRAC também teve significado especial para a cirurgiã-dentista Renata de Almeida Pernambuco, que representou os servidores do Hospital no momento do hasteamento das bandeiras.

Foto: Tiago Rodella, HRAC-USP

“Tenho um amor muito grande pelo Centrinho. Para mim, foi um orgulho e uma satisfação participar deste momento. A volta ao trabalho e o apoio da família e dos amigos têm sido muito importante. Contribuir com a reabilitação dos pacientes, além de ajudar a minha própria reabilitação, me deixa muito feliz por poder dar continuidade ao legado do Tio Gastão, pessoa que muito admiro e tenho como exemplo”, afirmou Renata, que atua no HRAC desde 1998.

Após quatro anos de afastamento em decorrência de acidente vascular cerebral (AVC) sofrido em 2015 – em que enfrentou UTI e ainda hoje tem algumas dificuldades de movimento –, a profissional retornou ao trabalho em março de 2019, na Seção de Odontopediatria e Saúde Coletiva do HRAC, em uma grande jornada de superação e determinação.

Nova gestão e prioridades
De acordo com o professor Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do HRAC-USP e diretor da FOB-USP, “o foco da atual gestão é conduzir com responsabilidade a ampliação das atividades do HRAC, dentro do contexto de implantação do Hospital das Clínicas de Bauru, complexo que a instituição irá integrar, e da criação da Faculdade de Medicina de Bauru, a qual damos total apoio à estruturação e cujo embrião é o HRAC”.

“É uma transição muito saudável, em que o HRAC é base sólida para a ampliação da rede de assistência estadual em Bauru e da formação acadêmica qualificada, contribuindo, mais uma vez, com as políticas públicas de saúde e educação, uma marca dessa trajetória de sucesso do Hospital”, destaca o professor Carlos.

Foto: Marcos Santos, USP Imagens

Um avanço importante ocorrido em junho de 2019 foi a definição do perfil assistencial do futuro Hospital das Clínicas, que será uma nova unidade hospitalar da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) em Bauru, concebida para manter e fortalecer o trabalho já realizado pelo HRAC-USP e complementar as necessidades dos 68 municípios que compõem o Departamento Regional de Saúde (DRS-6).

“As especialidades e serviços serão definidos conjuntamente com o DRS-6 e os demais hospitais da SES-SP em Bauru, em um desenho maior que visa a formação de um complexo hospitalar para otimização de insumos e equipes, além de preservar e potencializar a excelência do HRAC, que será incorporada ao Hospital das Clínicas”, afirma o superintendente.

O perfil assistencial ficou estabelecido em reunião realizada no dia 12 de junho de 2019, na SES-SP, em São Paulo. Além do dirigente da USP-Bauru, participaram da reunião: José Henrique Germann Ferreira, secretário de Estado da Saúde; Alberto Hideki Kanamura, secretário adjunto da SES-SP; Olímpio José Nogueira Viana Bittar, assessor de Gabinete da SES-SP; e os professores Vahan Agopyan, reitor da USP; Antônio Carlos Hernandes, vice-reitor da USP; Edmund Chada Baracat, pró-reitor de Graduação da USP; Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, diretor da Faculdade de Medicina (FM-USP) de São Paulo; Margaret de Castro, diretora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP); Paulo Francisco Ramos Margarido, superintendente do Hospital Universitário (HU-USP); e Adriana Fragalle Moreira, procuradora geral da USP.

O professor Carlos Ferreira dos Santos ressalta que a reunião na SES-SP ratificou proposta delineada anteriormente entre representantes da USP, DRS-6/SES-SP, Secretaria Municipal de Saúde de Bauru, Hospital de Base e Ministério Público Estadual, que prevê a destinação do Hospital de Base exclusivamente para atendimento dos casos de urgência e emergência, e que os demais hospitais da cidade sejam unidades de atenção eletiva, com ordenação de acesso mediante regulação, visando organizar e racionalizar a rede hospitalar, com tipificação dos serviços, sendo descartada a transferência do Hospital de Base para o HC.

“Conforme esse delineamento, portanto, somente alguns procedimentos cirúrgicos eletivos de baixo risco atualmente realizados no Hospital de Base poderão ser incorporados ao HC, dentro de uma lógica de reforçar a excelência do HRAC em áreas compatíveis, como, por exemplo, neurocirurgia pediátrica e otorrinolaringologia, e em consonância com as necessidades dos 68 municípios do DRS-6”, salienta o dirigente do HRAC-USP e FOB-USP.

Além da definição do perfil assistencial, conforme anunciado pelo Governo do Estado de São Paulo no último dia 16 de maio de 2019, ainda neste ano deverá ser concluída a licitação de um projeto arquitetônico para adequação do prédio do Hospital das Clínicas. Assim como as demais unidades de saúde e hospitais da rede municipal e estadual, o futuro HC servirá como ambiente de formação para os estudantes de Medicina, Odontologia e Fonoaudiologia.

Foto: Adauto Nascimento / Banco de imagens HRAC-USP

A instituição
Instituição pública de prestação de serviços à sociedade, ensino e pesquisa, o HRAC/Centrinho-USP é mantido com recursos da USP, do Sistema Único de Saúde (SUS) e de convênios.

Fundado em 24 de junho de 1967 – a partir de pesquisa realizada por professores da FOB-USP que identificou a incidência de fissura labiopalatina em uma a cada 650 crianças nascidas –, o HRAC é pioneiro em suas áreas de atuação e considerado centro de referência no tratamento das anomalias craniofaciais congênitas, síndromes associadas e deficiências auditivas, com assistência disponibilizada via SUS. O trabalho interdisciplinar de sua equipe, o processo de reabilitação integral e a humanização no atendimento ao paciente são características que desde a origem marcaram a atuação do Hospital e se destacam até os dias atuais.

Foto: Arquivo Pós-Graduação HRAC-USP

Reconhecido como hospital de ensino pelos Ministérios da Saúde e da Educação, o HRAC é também um importante núcleo de geração e difusão do conhecimento e inovações. Oferece programa de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) único no país e no mundo, além de cursos lato sensu e de extensão (residências médicas e multiprofissionais, especializações e práticas profissionalizantes), todos gratuitos. Diversos convênios de cooperação e mobilidade acadêmica com instituições de ensino do Brasil e do exterior reforçam sua vocação científica e para a internacionalização.

Desde sua fundação, o HRAC registra mais de 115.000 pacientes matriculados no total, e já formou mais de 1.500 mestres, doutores, especialistas e outros profissionais em cursos de extensão universitária.

A excelência do trabalho realizado pelo HRAC já foi reconhecida, historicamente, por diversos prêmios e certificações, concedidos por órgãos de renome do Brasil e do exterior. Essas premiações são importantes porque apontam a qualidade dos serviços prestados, o nível do ensino e pesquisa, instalações e infraestrutura, humanização, além de aspectos como inovação e gestão. Prêmio Melhores Hospitais do Estado, Olimpíada USP de Inovação, Prêmio Tese Destaque USP e Prêmio Saúde Editora Abril são algumas das premiações que o HRAC ou membros de sua equipe tiveram destaque nos últimos anos.

Todas essas características consolidam o HRAC, nacional e internacionalmente, como um avançado centro de reabilitação em saúde, formação profissional e pesquisa, com posição de destaque nos cenários assistencial, educacional, científico e social.

Foto: Adauto Nascimento / Banco de imagens HRAC-USP

Dia municipal da fissura labiopalatina
Em virtude da data de fundação do HRAC, 24 de junho também foi escolhido para celebrar o Dia Municipal da Pessoa com Fissura Labiopalatina em Bauru, instituído pela Lei Municipal Nº 6.849/2016.

A fissura labiopalatina é uma condição congênita em que há comprometimento da fusão dos processos faciais durante a gestação, e está relacionada a uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Apresenta grande variabilidade clínica, podendo envolver desde uma pequena cicatriz labial até fissuras completas e bilaterais, que são mais complexas. Pode ocorrer de forma isolada, estar associada a outras malformações ou ainda fazer parte de um quadro sindrômico.

A prevalência no Brasil é de uma a cada 650 crianças nascidas, considerando apenas pacientes com fissura isolada de lábio e/ou palato. O diagnóstico pré-natal – por meio de ultrassom, geralmente entre a 15ª e 22ª semana de gestação – favorece o planejamento dos cuidados com o bebê, e o aconselhamento e orientação dos pais por equipe especializada tranquiliza a família. Após o nascimento, o foco principal é o cuidado nutricional, visando ganho de peso e um bom desenvolvimento global que favoreça condições para as primeiras cirurgias.

As principais implicações que as fissuras podem trazer ao indivíduo são dificuldade na alimentação, alterações na arcada dentária e na mordida, comprometimento do crescimento facial e do desenvolvimento da fala e audição. Ao longo dos anos, essa condição pode inclusive trazer impactos sociais e emocionais, como o bullying.

O tratamento é um processo longo que envolve a atuação de equipe interdisciplinar, das áreas de cirurgia plástica, odontologia, fonoaudiologia, entre outras especialidades, todas indispensáveis à reabilitação. Inicia-se desde o nascimento, seguindo durante o período de desenvolvimento e, dependendo do acometimento, até a fase adulta, com cirurgias e acompanhamento clínico, englobando aspectos funcionais, estéticos e emocionais. A participação da família nesse processo também é fundamental para a qualidade de vida do paciente e para o sucesso da reabilitação.